Já faz algum tempo eu comecei uma pesquisa sobre as raízes do rock nacional com o objetivo de analisar os fundamentos desse ritmo, sua ação social e relembrar como tudo começou e se desenvolveu. Parti da pergunta “Qual é o rock que o pariu?”, perguntando a mim mesmo que músicas teriam marcado uma época na história do rock e na minha história particular. Claro que a pergunta é jocosa, aludindo a outros "parimentos" muito associados às raízes desse ritmo.
Quis compartilhar minhas descobertas com pessoas identificadas com o rock e expressões da cultura underground. Nesse ponto, contei com a colaboração de alguns amigos e visitantes do blog Lágrima Psicodélica, onde venho colaborando medianamente desde 2006. Elaborei algumas coletâneas baseadas nas sugestões e em minhas pesquisas. Inicialmente pretendia que fossem 3 ou 4 coletâneas. Mas não foi possível resumir tanta coisa boa (pelo menos interessante) em tão pouco espaço. No final, foram mais de 10 volumes, divididos cronologicamente.
Agora volto à baila, revisando e atualizando o trabalho, à medida que surjam novidades.
Portanto, entrego aos apreciadores, a coletânea O ROCK QUE O PARIU 1954-1961, no momento com 35 músicas.
A relação de músicas, e ano correspondente ao seu lançamento, encontra-se ao final do texto.
Um poquinho de história
À época em que surgiu o termo rock and roll, os ritmos que se atribuíam a ele eram aqueles derivados do jazz, tais como ragtime, charleston, boogie-woogie, bebop, fox-trot, e uma grande influência da country music ou hillbilly music. Porém, a marca mais característica era o rythm and blues (R&B).
Você terá ótima informação sobre a origem do R&B, aqui, na Wikipedia, em português.
No Brasil o ritmo que se atribuía ao gestante rock and roll, era o foxtrot, uma dança que deve seu nome ao ator estadunidense Harry Fox que a lançou em 1914. Inicialmente dançada ao som do ragtime, posteriormente ao som do swing das big bands teve grande repercussão na época da segunda guerra mundial.
Devido à incerteza de que nome dar àquele ritmo que surgia no nascimento do rock and roll, as gravadoras denominavam aquelas músicas de “Fox trots”. Foi assim que a gravadora Decca fez com que a música Rock around the clock, com Bill Halley and his Comets, se tornasse o mais famoso fox-trot de todos os tempos, com dezenas de milhões de cópias vendidas desde o seu lançamento.
Por isso vemos Raul de Barros e sua Orquestra, um conjunto especializado em sambas, boleros, fox-trots, swings, apresentando Neurastênico, posteriormente regravada com grande sucesso por Betinho e seu Conjunto e Ronnie Cord.
O ritmo rock and roll era conhecido como uma febre da juventude, mais especificamente dos adolescentes e até crianças. Num vídeo de 1955, disponível aqui, no You Tube, vemos Bill Halley e seus Cometas cantando para um grupo de pré-adolescentes. No ano seguinte, são jovens dançando o novo ritmo (veja aqui um trecho
do filme Rock Around The Clock, de 1956 que lançou o rock'n'roll para o mundo). O rock'n'roll ainda é um "passo de dança" mais que um ritmo (característica marcante do rhytm and blues dos negros em seus salões de dança, especialmente no Savoy Ballroom, no bairro do Harlem, na cidade de Nova Iorque, no período de 1926 a 1958). Desse modo, ao entrar no Brasil, era uma música para dolescentes e os intérpretes não viam nele muita importância (o mercado adolescente só veio a se destacar em meados dos anos 60, firmando-se no início dos anos 70 como imprescindível nicho de mercado).

Nora Ney presenteou-nos com sua versão, quase baião. O acordeão era um instrumento característico de vários grupos de country e folk music estadunidenses. O tecladista dos Cometas, Johnny Grande, a tocava sempre ao piano, porém utilizava o acordeão em apresentações ao vivo pela facilidade de transportar o instrumento. Na gravação de Nora Ney vemos um destaque maior para a nossa sanfona, afinal o baião era um ritmo extremamente popular na época, e Luiz Gonzaga já era o rei. Nora Ney sempre foi uma maravilhosa intérprete de sambas-canção e inegavelmente uma grande estrela da musica brasileira. Ela somente se aventurou na empreitada devido ser a única cantora da Radio Nacional, na época, que sabia cantar em inglês.
Poderemos ver que uma década depois, essa questão tinha menor importância, ao ouvirmos com atenção o álbum do grupo The Snakes, com vocal de Erasmo Carlos, e Renato e seus Blue Caps. Eles se divertiram à beça!!
Agostinho dos Santos, inegavelmente um dos maiores intérpretes da MPB, também arriscou no estilo, lançando Até Logo Jacaré. Frase que ficou ridícula e sem nexo algum, embora tenha pegado na época. No original em inglês, existe uma ligação ritmica natural, "see you later, alligator", até rimando. Bem, taí a música, e com aquela bela voz na introdução que, espero sinceramente, NÃO SEJA do Agostinho. Mas se for, eu queria ter pago uma birita para ele depois da gravação...
Cauby Peixoto cantando em Rock and roll em Copacabana, é "super-raridade do rock and roll nacional, gravado em janeiro, mas só lançado em maio de 1957, é provavelmente o primeiro rock de autor brasileiro, com letra em português. Escrito por Miguel Gustavo, este empolgante rock foi gravado por Cauby Peixoto, acompanhado pela Orquestra RCA Victor, com interpretação influenciada pelo rhythm 'n' blues americano à la Jackie Wilson. Além de Rock and Roll em Copacabana, Cauby Peixoto, que também usou o nome de Coby Dijon, ainda gravou Enrolando o Rock (1957) e Mack the Knife (1960), contribuindo com sua voz e feeling para a divulgação do novo gênero musical." [texto obtido aqui]
Estou à procura de Mack the Knife... mas com Cauby, ou melhor: Coby Dijon.
Em janeiro de 1957 Cauby Peixoto gravou Rock and Roll em Copacabana, escrito por Miguel Gustavo, mas só lançado em maio do mesmo ano. O primeiro rock and roll com letra em português. "Nos anos 50, Cauby Peixoto (Niterói, 10/02/1931) foi considerado pela revista Time como o Elvis Presley brasileiro. O sucesso da gravação de Rock and Roll Em Copacabana fez com que fosse convidado para uma turnê nos Estados Unidos, onde atuou com os pseudônimos de Ron Coby em 1957. Ainda nos Estados Unidos, conheceu vários astros da canção e do cinema americano e atuou em programas importantes da TV americana, como o Ed Sullivan Show. Acompanhado pela orquestra de Paul Weston, Ron Coby participou do filme Jamboree (Warner Bros. 1957), cantando o flamenco Toreador (ao lado de Fats Domino, Jerry Lee Lewis, Carl Perkins, Connie Francis e Frankie Avalon, e outros), e gravou um LP!
De volta ao Brasil, gravou o hit de Betinho e seu Conjunto, Enrolando O Rock (um 78 rpm pela Colúmbia, editado em dezembro de 1957, tendo no outro lado Linda)(...).
A chanchada Minha Sogra é da Polícia, de 1958, um filme dirigido por Aloísio T. de Carvalho e que contava no elenco com Violeta Ferraz, Costinha, Wilza Carla, Fregolente, Jackson do Pandeiro e outros, teve a participação de Cauby cantando Enrolando o Rock. O jovem violonista que o acompanha na cena é Roberto Carlos. Outros músicos no filme: Lana Bitencourt, Carlos Imperial, Paulo Silvino e Wilson Simonal. Em 1959, Cauby retornou aos Estados Unidos para uma temporada de 14 meses e então gravou com o nome de Coby Dijon, as músicas Maracangalha, renomeada I Go (ou I Go There, versos em inglês de autor por mim desconhecido), e You´ll Never Get Away From Me" [texto obtido aqui]
Cauby Peixoto não foi o pai de nosso rock, mas pode ser muito bem "o tio"! A paternidade de nosso antigo rock'n'rollfica melhor para Tony Campello, que com sua irmã Cely Campello, deram o pontapé fundamental para a popularização do rock. Inicialmente lançaram um álbum em inglês. Depois, vocês já sabem...
Embora hoje afastado do meio musical e dedicado à religião evangélica (e antes de isso se tornar 'moda', ressalto), Carlos Gonzaga foi um dos maiores expoentes da época, por anos e vários álbuns lançados. Mas sua marca principal ficou a versão de Diana.
Devemos lembrar que o rock que chegou aqui, era o mais 'branco' possível, à la Paul Anka, Neil Sedaka. Afinal, já temos o samba. Ouve até uma crítica na época numa música gravada por Elza Soares, Botaram boogie-woogie no meu samba, maravilhosa. Não a coloquei na coletânea, por acreditar que estaria desviando demais do rumo.
Sergio Murilo, Osmar Navarro, Wilson Miranda, George Freedman, foram nomes importantes para a época.
O Rock do Saci, é um "clássico do rock genuinamente nacional, composto de por Baby Santiago e Tony Chaves (Wilson Miranda, quando autor), interpretado por Demétrius, que iniciou sua carreira no selo Young, em 1960. Ídolo da juventude na primeira fase do rock, também fez sucesso na Jovem Guarda, com Ritmo da Chuva, versão para Rhythm in the Rain, do grupo The Cascades. Em 1972, ganhou citação/homenagem dos Mutantes, junto com Celly Campello, em Posso Perder Minha Mulher, Minha Mãe, Desde que Eu Tenha o Rock and Roll, no álbum Mutantes e seus Cometas no País do Baurets."(revista Senhor F).
The Avalons com China Rock, é uma delícia de se ouvir, numa pegada de guitarra e bateria bem a frente do que se fazia no rock tupiniquim de então. Merece o comentário do site Senhor F: "Um dos melhores exemplares do rock instrumental brasileiro, gravado em 1959, pelo grupo paulistano The Avalons. Apoiado em riff eletrizante, foi o primeiro lançamento do selo paulista Young, do disc-jockey Miguel Vaccaro Neto, que fez história no início dos anos sessenta. Pioneiros do rock instrumental nacional, The Avalons tinha entre seus integrantes o guitarrista Dudu, um dos melhores da época".
Com o afastamento de Cely Campello do meio musical, tentaram lançar uma gauchinha que cantava muuuito, para ocupar seu lugar de 'namoradinha do Brasil', digamos. Assim, meu coração se alegrou e meus ouvidos se contentaram ao ouvir a firmeza, clareza e graça que Elis Regina gravou em seu primeiro álbum, com algumas canções voltadas para versões de temas próximos do rock. Sou apaixonado por Elis Regina, assim como já declararam isso Milton Nascimento, Gilberto Gil... eles chegaram antes..! Fazer o quê?! Mas vê-se, pelas músicas, que não era bem a praia dela, e muito antes da passeata contra as guitarras elétricas. Mas depois ela volta com tudo nos anos 70. Você verá (ou melhor, ouvirá).
Inseri algumas canções gravadas por Roberto Carlos para ver como a coisa era diferente naquela época. Demorou alguns anos para ele mandar tudo pro inferno...

Por outro lado, o menos lembrado, e a meu ver muito injustiçado, Eduardo Araújo arrebenta no estilo Ronnie Self, com a canção Prima Daisy, de Carlos Imperial, de quem ele foi secretário, 'cargo' depois ocupado pelo Erasmo Carlos. Claro que peguei um comentário no site Senhor F, onde diz o seguinte, sobre essa gravação do Eduardo: "Registro mais importante da primeira fase da carreira de Eduardo Araújo - uma das mais curiosas da história do rock brasileiro, que teve início em 1961, mas só estourou na segunda metade dos anos sessenta. Cantada à la Little Richard, Prima Daisy, composição de Carlos Imperial, e trilha do filme Sherlock de Araque, foi lançada em 1961, como lado B de Maringá, de Joubert de Carvalho. Depois de gravar outras pérolas, como Deixa o Rock, provavelmente sua primeira composição, Eduardo Araújo afastou-se por uns tempos, para retornar em grande estilo na Jovem Guarda, com O Bom e Vem Quente Que Estou Fervendo, entre outros clássicos."
É lógico que muita gente vai achar que foi por pura sacanagem que eu inseri o "fox" de Altamiro Carrilho e seu Conjunto, cantado pelo Palhaço Carequinha e Coral. Ledo engano: foi o primeiro "rock" infantil. Lembrem-se que ele foi ídolo da criançada por mais de dez anos na televisão. Foi ele quem deu muitas dicas para a Xuxa, quando ela começou na extinta Manchete.
Apesar de Renato e seus Blue Caps serem, ao lado de Roberto-Erasmo, símbolos do movimento Jovem Guarda (criação elaborada pelo publicitário Carlito Maia), já se destacavam muitos anos antes (o movimento surgiu a partir do programa de TV lançado em 1965).
E essa música Limbo do Trá-lá-lá... que pérola! Rock caribenho?! Bem, numa época em que os Beatles gravavam bolero!Sem subestimar a importância do bolero; justamente por isso é que gravaram... E a interpretação de Renato e seus Blue Caps está deliciosa.
Agora, amigos, que diversão, que farra, não foi para Erasmo ser vocalista do grupo The Snakes. Sua interpretação para Blue Moon, é um tremendo barato. Agora, quem consegue transcrever o que ele canta em At the hop? Hahahaha... o negócio é relaxar e chacoalhar as cadeiras!
Roberto, montado em sua lambreta, conquista Susie e lança o termo "iê-iê-iê", um pouco antes de chegarem os "reis do iê-iê-iê". Ainda por cima, tasca um arranjo descaradamente parecido com Diana para cantar Malena. Bem, seu declamado... depois eu comento!
01 Raul de Barros e Sua Orquestra - Neurastênico (original) 1954
02 Nora Ney - Ronda das horas (rock around the clock) 1955
03 Agostinho dos Santos - Até logo jacaré - 1956
04 Cauby Peixoto e Betinho e seu Conjunto - Enrolando o rock 1957
05 Betinho E Seu Conjunto - Neurastênico (original) 1957
06 Cauby Peixoto - Rock'n'roll em Copacabana 1957
07 Carlos Gonzaga - Diana 1958
08 Celly Campello - Handsome boy 1958
09 Tony Campello - Forgive me 1958
10 Coby Dijon (Cauby Peixoto) - I go there (Maracangalha) 1959
11 Celly Campello - Lacinhos cor-de-rosa 1959
12 Sergio Murilo - Marcianita 1959
13 Baby Santiago - Estou louco 1959
14 Celly Campello - Banho de Lua 1959
15 Carlos Gonzaga – Quem é? 1959
16 The Avalons - China rock 1959
17 Celly Campello - Estúpido cupido 1959
18 Osmar Navarro - Quem é? 1959
19 Roberto Carlos - Brotinho sem juízo 1960
20 Sergio Murilo - Broto legal 1960
21 Renato e seus Blue Caps - Espante a tristeza 1960
22 Wilson Miranda - Bata Baby 1960
23 Renato e seus Blue Caps - Garota fenomenal 1960
24 Sergio Murilo - Brotinho de biquini 1960
25 George Freedman - Adivinhão 1961
26 Elis Regina - Sonhando 1961
27 Demetrius - Rock do Saci 1961
28 Eduardo Araújo com Clube do Rock - Prima Daisy 1961
29 Roberto Carlos - Louco por você 1961
30 Elis Regina - Baby face 1961
31 Carequinha e Altamiro Carrilho - Rock do ratinho 1961
32 Elis Regina - Amor, amor 1961
33 Wilson Miranda – Alguém é sempre bobo de alguém 1961
34 Elis Regina - Garoto último tipo 1961
35 Sergio Murilo e Snakes - Tu serás 1961
O Rock Que O Pariu!! 1954-1961.part1.rar
O Rock Que O Pariu!! 1954-1961.part2.rar
senha (password) para os arquivos: undiverso
Nenhum comentário:
Postar um comentário