No ano de 2003 passei a integrar uma banda de rock como vocalista e, diante dessa posição,assumi a responsabilidade direta pela criação das letras. Lógico que levei isso muito a sério. Com toda a pretensão possível em alguém que nunca tinha escrito nada na vida além de medíocres dissertações no colégio, eu me pegava pensando em Renato Russo, Cazuza, Raul Seixas e outros gênios similares. É fascinante como o rock conseguia chegar tão perto da poesia quando esses caras escreviam. Bem, pautando-me por essas referências, juntei a minha apreciação e iniciei uma frustrada jornada no ofício da composição. Não queiram saber do resultado, foi muito abaixo do esperado. No final das contas acho que coloquei tanta preocupação com a forma que esqueci do conteúdo. Ou seja, as rimas eram até interessantes, mas para entender as letras era preciso um grande esforço hermenêutico. E também tinha a questão de que quem cantava era eu mesmo, desafinadíssimo.
O fato é que diante de tanta decepção alguma coisa tinha que sobrar de bom. E foi exatamente a quantidade de álbuns seminais que conheci no caminho do "aprendizado". Todos os estilos, todas as épocas, o importante era conhecer os grandes compositores da MPB. Além de rever bandas que eu já conhecia como a Legião Urbana, o Barão Vermelho, Titãs e outras dos anos 1980 e 1990, buscando cobrir toda a discografia, também corri atrás de gente mais antiga e de outras praias sonoras. Que tal descobrir a densa poesia no samba do humilde Cartola e seus dois discos fundamentais, lançados pela Editora Marcus Pereira nos anos 1970? Ou a fúria pós-tropicalista do Secos e Molhados, mascarados e misteriosos, guiados pela divina voz do exótico Ney Matogrosso? E o baque da descoberta de uma Maria Bethânia implacável, de voz estrondosa, à vontade no Recital da Boite Barroco?Grandes descobertas. Mas, sem sombra de dúvidas, a mais marcante de todas foi o cearense Belchior. Gênio esquecido até pelo próprio, produziu uma das maiores obras de arte da história musical do Brasil, seu primeiro disco de estúdio, de 1974. A oportunidade surgiu numa banca de promoções-relâmpago, de uma Lojas Americanas da vida. Um CD dois-em-um lançado no ano de 2000, contendo este primeiro e talvez o quarto álbum de estúdio (o que não interessa porque só vou falar sobre o primeiro mesmo) remasterizados.
Música a música, letra a letra, trata-se de uma compilação de grandes momentos de Belchior, seja como compositor, seja como cantor. E apesar da complexidade dos arranjos, a simplicidade do resultado final é emocionante. Vale um passeio por esse universo que alguns chamam de "Mote e glosa" e outros de "A palo seco", como hoje ficou conhecido esse primeiro registro, apesar de não constar essa informação no encarte. Eu o nomeio como "O" disco do Belchior.
Para começar, um sentido: o álbum consegue trazer para o contexto da música pop o nordeste brasileiro à cru. A combinação entre os instrumentos musicais típicos da identidade nordestina e a voz grave e dolorida de Belchior, dá forma a uma perfeita fotografia da realidade social da região. No interior dessa moldura, canções que discursam sobre a morte, o sofrimento e a desesperança, como em "Senhor dono da casa" e "Cemitério":
“ah, meu Senhor dono da casa,
acorde, pois o sol quer lhe dizer
que a morte fez metade do caminho,
abra que sou seu vizinho
saia pra me me responder”
“o cemitério é geral,
a morte nos faz irmão
tu nessa idade não sabes,
tudo é sertão e cidade
tudo é cidade e sertão.”
O interessante nas duas canções é a presença do pífano acompanhando a melodia da voz de Belchior. Como uma marca da tragédia sertaneja, a rústica flauta, típica das formações musicais do norte e nordeste brasileiro, preenche o cenário e legitima a dor do narrador. Esse instrumento aparece novamente apenas na faixa de abertura, "Mote e glosa", onde o conceito do álbum é apresentado em sua proposta de trazer uma sonoridade típica da regionalidade nordestina e onde Belchior desafia o ouvinte:
“você que é muito vivo,
me diga qual é o novo,
me diga qual é?”
O novo, aludido nesta abertura, é o que podemos identificar através da aproximação que se dá entre o repente e o pop-rock, entre os sucessos do rádio e os cordelistas das feiras, entre os Beatles e Luiz Gonzaga. Referências utilizadas com maestria, sem excessos ou citações desnecessárias.Ainda no tom da identidade nordestina, mas já revelando incômodos que transcendem a especificidade do sertão, Belchior fala sobre a angústia da juventude, intimidada pelas tradições e o conservadorismo da sociedade. E a canção que retrata de forma contundente esse sentimento é "Na hora do almoço", vencedora do IV Festival Universitário da MPB, em 1971. A principal crítica recai sobre a família: lugar de medo, rancores e hipocrisia. No seio familiar, debaixo da pesada hierarquia, manifestada através da imagem do pai sentado à cabeceira da mesa, residem as regras arcaicas que impedem a juventude de conhecer a vida, de construir seu próprio destino:
“no centro da sala, diante da mesa
no fundo do prato, comida e tristeza
a gente se olha, se toca e se cala
e se desentende no instante em que fala”
“(...) e eu ainda sou bem moço pra tanta tristeza
deixemos de coisas e cuidemos da vida
senão chega a morte ou coisa parecida
e nos arrasta, moço, sem ter visto a vida”Estamos no início dos anos 1970. Contextualizando a composição desses versos e a produção do disco temos um cenário complexo de eventos, emoções e atitudes paradoxais que se relacionam, de um lado, com as medidas mais repressivas da ditadura militar brasileira e, por outro, com o sentimento de libertação provocado pelo tropicalismo e a contracultura, incitadores da novidade e do vanguardismo. O impacto da censura no meio artístico, que fez com que nomes ligados a MPB como Caetano Veloso, Gilberto Gil e Chico Buarque abandonassem provisoriamente o país, demandava um maior cuidado na construção de letras críticas. Talvez isso tenha feito com que Belchior se afastasse da mensagem direta e gravasse a angústia e o incômodo de forma mais abstrata, em um sentido mais filosófico, como na passagem existencialista de "A palo seco":
“se você vier me perguntar por onde andei
no tempo em você sonhava
de olhos abertos lhe direi,
amigo eu me desesperava
sei que assim falando pensas
que esse desespero é moda em 73
mas ando mesmo descontente
desesperadamente eu grito em português (...)”
Vale lembrar que Belchior estudou Filosofia e Humanidades em Fortaleza, em meados dos anos 60, e chegou a iniciar a faculdade de Medicina, abandonando-a quando se interessou profissionalmente pela música. É um momento crucial na carreira de Belchior. Ele, que até então tivera uma canção gravada por Elis Regina ("Mucuripe", co-autoria com Fagner, mais um representante do "Pessoal do Ceará") e a vitória no Festival Universitário com uma canção apresentada por outros intérpretes ("Na hora do almoço"), vê agora a oportunidade de registrar a sua presença, atuando em um álbum só de canções próprias. Infelizmente, o disco, lançado pela Gravações Chantecler, não alcança o sucesso esperado, que só virá com o álbum posterior, "Alucinação", de 76. Essa tensão que remete à busca pelo sucesso, do sonho de ser artista, de abandonar a segurança de uma faculdade de Medicina e lançar-se ao sudeste à procura de espaço, é explicitada nos primeiros versos de "Todo sujo de baton":
“eu estou muito cansado do peso da minha cabeça
desses dez anos passados, presentes,
vividos entre o sonho e o som”
A reflexão sobre a mudança e a angústia que nasce da saudade vêm à tona em duas outras canções que relatam, respectivamente, a sua ligação com a cidade de São Paulo ("Passeio") e o desejo de voltar para casa e contar histórias sobre os lugares fascinantes por onde andou ("Rodagem"). Em "Passeio", uma canção suave, de refrão forte, Belchior relata os traços que compõem a visão da grande São Paulo (a eletricidade, o cimento, os carros) e não esconde a perplexidade e a sedução que a cidade desperta:
“a eletricidade desta cidade
me dá vontade de gritar
que apaixonado eu sou
nesse cimento, meu pensamento,
só tem o momento de fugir
no disco voador”.
A relação que desenvolvi com essa obra é definitiva. É um disco bem fácil, daqueles que você precisa ouvir uma só vez para entender a sonoridade, a força das letras e arranjos. Sinceramente, não consegui encontrar a mesma intensidade no restante da discografia de Belchior. E ainda devo uma audição aos outros integrantes do "Pessoal do Ceará". Mas, eis aqui um álbum tão vasto em informações e referências, que ainda não o considero totalmente assimilado. Dessa maneira, as observações acima revelam-se apenas uma breve introdução a essa verdadeira obra-prima, que merece ser cultuada e alçada ao seu lugar de direito, o rol dos clássicos maiores da música popular brasileira.
Aqui estão alguns links para você baixar o excelente primeiro álbum do Belchior de 1974 "Palo Seco" ou "Mote e Glosa"..
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Não tem desculpa. Quando testei estavam todos on-line.
http://rapidshare.com/files/107983164/Belchior_1974.rar.html
http://www.megaupload.com/?d=D7S5Y2S5
http://depositfiles.com/pt/files/kmht7qqkb
http://www.4shared.com/file/93585413/af2561a4/Belchior_-_1974_-_Mote_e_Glosa.html
http://www.easy-share.com/1906710980
http://www.zshare.net/download/58455748c14a900e/
http://www.badongo.com/file/14356742
(Agora, se ainda assim vc não con seguir baixar, meu undiversificado amigo, enfia o dedo e rasga...)






Um comentário:
muito bom. agora, desnecessário o enfia o dedo...
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