sábado, 27 de março de 2010

Mote e Glosa, A Palo Seco ou "O" disco do Belchior... 1974

Transcrevo o conteúdo completo da postagem que encontrei no site "We got a problem...", por estar muito bem escrito ser uma brisa sobre a história da música pop brasileira. Agradeço ao John Chaker por autorizar sua cópia aqui para este meu blargh...


No ano de 2003 passei a integrar uma banda de rock como vocalista e, diante dessa posição, assumi a responsabilidade direta pela criação das letras. Lógico que levei isso muito a sério. Com toda a pretensão possível em alguém que nunca tinha escrito nada na vida além de medíocres dissertações no colégio, eu me pegava pensando em Renato Russo, Cazuza, Raul Seixas e outros gênios similares. É fascinante como o rock conseguia chegar tão perto da poesia quando esses caras escreviam. Bem, pautando-me por essas referências, juntei a minha apreciação e iniciei uma frustrada jornada no ofício da composição. Não queiram saber do resultado, foi muito abaixo do esperado. No final das contas acho que coloquei tanta preocupação com a forma que esqueci do conteúdo. Ou seja, as rimas eram até interessantes, mas para entender as letras era preciso um grande esforço hermenêutico. E também tinha a questão de que quem cantava era eu mesmo, desafinadíssimo.

O fato é que diante de tanta decepção alguma coisa tinha que sobrar de bom. E foi exatamente a quantidade de álbuns seminais que conheci no caminho do "aprendizado". Todos os estilos, todas as épocas, o importante era conhecer os grandes compositores da MPB. Além de rever bandas que eu já conhecia como a Legião Urbana, o Barão Vermelho, Titãs e outras dos anos 1980 e 1990, buscando cobrir toda a discografia, também corri atrás de gente mais antiga e de outras praias sonoras. Que tal descobrir a densa poesia no samba do humilde Cartola e seus dois discos fundamentais, lançados pela Editora Marcus Pereira nos anos 1970? Ou a fúria pós-tropicalista do Secos e Molhados, mascarados e misteriosos, guiados pela divina voz do exótico Ney Matogrosso? E o baque da descoberta de uma Maria Bethânia implacável, de voz estrondosa, à vontade no Recital da Boite Barroco?

Grandes descobertas. Mas, sem sombra de dúvidas, a mais marcante de todas foi o cearense Belchior. Gênio esquecido até pelo próprio, produziu uma das maiores obras de arte da história musical do Brasil, seu primeiro disco de estúdio, de 1974. A oportunidade surgiu numa banca de promoções-relâmpago, de uma Lojas Americanas da vida. Um CD dois-em-um lançado no ano de 2000, contendo este primeiro e talvez o quarto álbum de estúdio (o que não interessa porque só vou falar sobre o primeiro mesmo) remasterizados.

Música a música, letra a letra, trata-se de uma compilação de grandes momentos de Belchior, seja como compositor, seja como cantor. E apesar da complexidade dos arranjos, a simplicidade do resultado final é emocionante. Vale um passeio por esse universo que alguns chamam de "Mote e glosa" e outros de "A palo seco", como hoje ficou conhecido esse primeiro registro, apesar de não constar essa informação no encarte. Eu o nomeio como "O" disco do Belchior.

Para começar, um sentido: o álbum consegue trazer para o contexto da música pop o nordeste brasileiro à cru. A combinação entre os instrumentos musicais típicos da identidade nordestina e a voz grave e dolorida de Belchior, dá forma a uma perfeita fotografia da realidade social da região. No interior dessa moldura, canções que discursam sobre a morte, o sofrimento e a desesperança, como em "Senhor dono da casa" e "Cemitério":

“ah, meu Senhor dono da casa,
acorde, pois o sol quer lhe dizer
que a morte fez metade do caminho,
abra que sou seu vizinho
saia pra me me responder”

“o cemitério é geral,
a morte nos faz irmão
tu nessa idade não sabes,
tudo é sertão e cidade
tudo é cidade e sertão.”

O interessante nas duas canções é a presença do pífano acompanhando a melodia da voz de Belchior. Como uma marca da tragédia sertaneja, a rústica flauta, típica das formações musicais do norte e nordeste brasileiro, preenche o cenário e legitima a dor do narrador. Esse instrumento aparece novamente apenas na faixa de abertura, "Mote e glosa", onde o conceito do álbum é apresentado em sua proposta de trazer uma sonoridade típica da regionalidade nordestina e onde Belchior desafia o ouvinte:

“você que é muito vivo,
me diga qual é o novo,
me diga qual é?”

O novo, aludido nesta abertura, é o que podemos identificar através da aproximação que se dá entre o repente e o pop-rock, entre os sucessos do rádio e os cordelistas das feiras, entre os Beatles e Luiz Gonzaga. Referências utilizadas com maestria, sem excessos ou citações desnecessárias.

Ainda no tom da identidade nordestina, mas já revelando incômodos que transcendem a especificidade do sertão, Belchior fala sobre a angústia da juventude, intimidada pelas tradições e o conservadorismo da sociedade. E a canção que retrata de forma contundente esse sentimento é "Na hora do almoço", vencedora do IV Festival Universitário da MPB, em 1971. A principal crítica recai sobre a família: lugar de medo, rancores e hipocrisia. No seio familiar, debaixo da pesada hierarquia, manifestada através da imagem do pai sentado à cabeceira da mesa, residem as regras arcaicas que impedem a juventude de conhecer a vida, de construir seu próprio destino:

“no centro da sala, diante da mesa
no fundo do prato, comida e tristeza
a gente se olha, se toca e se cala
e se desentende no instante em que fala”

“(...) e eu ainda sou bem moço pra tanta tristeza
deixemos de coisas e cuidemos da vida
senão chega a morte ou coisa parecida
e nos arrasta, moço, sem ter visto a vida”

Estamos no início dos anos 1970. Contextualizando a composição desses versos e a produção do disco temos um cenário complexo de eventos, emoções e atitudes paradoxais que se relacionam, de um lado, com as medidas mais repressivas da ditadura militar brasileira e, por outro, com o sentimento de libertação provocado pelo tropicalismo e a contracultura, incitadores da novidade e do vanguardismo. O impacto da censura no meio artístico, que fez com que nomes ligados a MPB como Caetano Veloso, Gilberto Gil e Chico Buarque abandonassem provisoriamente o país, demandava um maior cuidado na construção de letras críticas. Talvez isso tenha feito com que Belchior se afastasse da mensagem direta e gravasse a angústia e o incômodo de forma mais abstrata, em um sentido mais filosófico, como na passagem existencialista de "A palo seco":

“se você vier me perguntar por onde andei
no tempo em você sonhava
de olhos abertos lhe direi,
amigo eu me desesperava
sei que assim falando pensas
que esse desespero é moda em 73
mas ando mesmo descontente
desesperadamente eu grito em português (...)”


Vale lembrar que Belchior estudou Filosofia e Humanidades em Fortaleza, em meados dos anos 60, e chegou a iniciar a faculdade de Medicina, abandonando-a quando se interessou profissionalmente pela música. É um momento crucial na carreira de Belchior. Ele, que até então tivera uma canção gravada por Elis Regina ("Mucuripe", co-autoria com Fagner, mais um representante do "Pessoal do Ceará") e a vitória no Festival Universitário com uma canção apresentada por outros intérpretes ("Na hora do almoço"), vê agora a oportunidade de registrar a sua presença, atuando em um álbum só de canções próprias. Infelizmente, o disco, lançado pela Gravações Chantecler, não alcança o sucesso esperado, que só virá com o álbum posterior, "Alucinação", de 76. Essa tensão que remete à busca pelo sucesso, do sonho de ser artista, de abandonar a segurança de uma faculdade de Medicina e lançar-se ao sudeste à procura de espaço, é explicitada nos primeiros versos de "Todo sujo de baton":

“eu estou muito cansado do peso da minha cabeça
desses dez anos passados, presentes,
vividos entre o sonho e o som”

A reflexão sobre a mudança e a angústia que nasce da saudade vêm à tona em duas outras canções que relatam, respectivamente, a sua ligação com a cidade de São Paulo ("Passeio") e o desejo de voltar para casa e contar histórias sobre os lugares fascinantes por onde andou ("Rodagem"). Em "Passeio", uma canção suave, de refrão forte, Belchior relata os traços que compõem a visão da grande São Paulo (a eletricidade, o cimento, os carros) e não esconde a perplexidade e a sedução que a cidade desperta:

“a eletricidade desta cidade
me dá vontade de gritar
que apaixonado eu sou
nesse cimento, meu pensamento,
só tem o momento de fugir
no disco voador”.

A relação que desenvolvi com essa obra é definitiva. É um disco bem fácil, daqueles que você precisa ouvir uma só vez para entender a sonoridade, a força das letras e arranjos. Sinceramente, não consegui encontrar a mesma intensidade no restante da discografia de Belchior. E ainda devo uma audição aos outros integrantes do "Pessoal do Ceará". Mas, eis aqui um álbum tão vasto em informações e referências, que ainda não o considero totalmente assimilado. Dessa maneira, as observações acima revelam-se apenas uma breve introdução a essa verdadeira obra-prima, que merece ser cultuada e alçada ao seu lugar de direito, o rol dos clássicos maiores da música popular brasileira.


Aqui estão alguns links para você baixar o excelente primeiro álbum do Belchior de 1974 "Palo Seco" ou "Mote e Glosa"..
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Não tem desculpa. Quando testei estavam todos on-line.

http://rapidshare.com/files/107983164/Belchior_1974.rar.html
http://www.megaupload.com/?d=D7S5Y2S5
http://depositfiles.com/pt/files/kmht7qqkb
http://www.4shared.com/file/93585413/af2561a4/Belchior_-_1974_-_Mote_e_Glosa.html
http://www.easy-share.com/1906710980
http://www.zshare.net/download/58455748c14a900e/
http://www.badongo.com/file/14356742

(Agora, se ainda assim vc não con seguir baixar, meu undiversificado amigo, enfia o dedo e rasga...)

sexta-feira, 26 de março de 2010

Irresponsabilidade mata mais que a dengue!

Bem, senhores versados e undiversados, não sou tão responsável quanto eu penso e nem como deveria. Mas deve existir, alhures, pessoas com tal índole...
Repasso esse assunto. Averiguem por sua própria conta (a não ser que vocês tenham algum Projeto, ou Plano de Ação, que permita o uso de verbas públicas...)



À todas pessoas responsáveis deste País.

Meu nome é Manoel Lourenço das Neves e sou Provedor da Santa Casa de Santos.

Nos meus 80 anos de idade eu nunca vi uma epidemia como esta que grassa a Baixada Santista.

O grande problema está em que as autoridades sanitárias estão encobrindo o número de casos que estão acontecendo na região. Os hospitais estão superlotados, não existem vagas e, por conta disso, pessoas em estado grave estão sendo enviadas para casa com a recomendação de "retornar se piorarem".

Como "se piorarem"?

Nos casos de dengue hemorrágica piorar quase sempre É MORRER!!!

Minha intenção ao divulgar essas informações é porque nós, responsáveis pelos hospitais da Baixada Santista, não obtivemos resposta às nossas súplicas ao ministro José Gomes Temporão. Nós estamos além do nosso limite. Nossos profissionais estão tendo que decidir quem vive e quem morre.

Isto tem que parar!

Solução existe e não é difícil de implementar. É só instalar hospitais de campanha com a ajuda do exército e o deslocamento de profissionais de saúde para a região até que a situação esteja sob controle.

Porém os interesses financeiros de uma região turística e portuária são mais fortes.

Por conta dessa situação rogo a todos que NÃO VENHAM À BAIXADA SANTISTA e repassem essas informações ao maior número de pessoas possível.

Obrigado a todos e que Deus nos ajude.

Irmandade da Santa Casa da Misericordia de Santos
Manoel Lourenco das Neves
Provedor


Recebi esse e-mail a semana passada.
Você poderá obter mais informações sobre a situação manifestada pelo Sr. Manoel na internet.
O Diário do ABC publicou uma reportagem interessante da AE, com data de 06/3/2010.
Outra reportagem do publicada em 06/3/2010, da Agência Brasil, no site de notícias Ambiente Brasil, mostra que a coisa tá feia.

Agora aguardemos a vacina contra a dengue. A vacina (e campanha) contra o virus H1N1 já está a todo vapor!... (Só não sei vale contra a dengue. É ruim ser ignorante nessas horas...)


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