
Chovia.
Eram quatro e meia da manhã quando cheguei com meu saxofone no estojo e a vi na calçada, em frente à porta… fechada. Malas nas mãos, as dela e as minhas.
— Aqui não dá mais…
Não quis saber seus motivos. Na verdade, eu já os sabia, mesmo sem querer. O silêncio dela, a forma como me olhava, reparando mais no nó desfeito da minha gravata do que em mim mesmo; o modo como ela retirava aquele pedaço de esmalte descascado da unha, sem qualquer interesse a não ser o de ir adiante, falavam mais que tudo.
O ruído da chuva, caindo nos telhados, embora pouca, me parecia ensurdecedor. Oprimia-me de tal forma que eu precisava seguir com ela.
Momentos depois chegamos à pensão de D. Gigi, uma francesa aposentada da vida noturna. Ela nos atendeu acompanhada de um tal James que nos olhava de cima embaixo, com meio corpo atrás da pensionista. De imediato não nos recebeu. Disse que era uma pensão honesta, onde residiam pessoas de boa reputação. James sorriu de canto de boca, olhando disfarçadamente para baixo. Depois fixou os olhos em nós. Na verdade, ficou vidrado nela. Ela o olhou com ar de deboche e foi falar em reservado com madame Gigi.
Conseguimos um quarto no primeiro andar.
— Vocês podem usar o outro quarto em frente, se precisarem – disse madame Gigi, olhando para ela.
— Ela me disse que o senhor é músico.
Toco saxofone – respondi. Elas se entreolharam sorrindo.
Recolhemo-nos. Retirei meu saxofone do estojo. Ela me lançou um olhar de reprovação. Sem nada responder, guardei-o novamente.
O alvoroço no café da manhã era enorme.
Sozinho, no quarto, comecei a ensaiar, como sempre. Como sempre...
Ouvia risos, passos e atropelos pela escada. Os murmúrios atrás da porta falavam mais dela que de mim.
Voltavam as lembranças de meus antigos recitais, muito antes dela, bem antes de conhecê-la.
Como eu poderia saber que ela viria ser o meu vício, a minha maior inspiração e o meu maior desassossego?
“Um trono para o homem, um altar para a mulher”, disse Victor Hugo. Mas nada sabia eu do amor doentio, do prazer da dor. O parir da dor.
Ainda não sei porque ela está comigo, nem porque ainda a tenho. Tenho-a como a casca da ferida. Não a quero, mas a necessito.
Hoje não me resta inspiração na beleza dos madrigais ou num copo de cognac. Mas nos quadris dela, no seu sorriso malicioso e em seu desprezo.
Ela me deu o prazer de tê-la num modo incomum: no instrumento que toco. Estamos unidos no saxofone. Somos dois, somos três e somos um.
O saxofone me toca.
Eu toco o saxofone.
E, ao tocá-lo, sinto que a toco de uma forma única.
(Texto baseado na crônica O Moço do Saxofone, de Lygia Fagundes Telles)
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