
Era uma vez um asilo...
Não era um asilo grande. Também não era pequeno.
Era apenas um asilo. Muitas vezes, um asilo a duras penas.
Naquele dia fomos ao asilo, eu e minha filha, conhecer as pessoas.
Eu observava minha filha observando as pessoas.
Ela é muito observadora, sorridente, discreta e interessada.
E assim, observando, percebi que num asilo as pessoas se sentem isoladas.
As pessoas mais isoladas são as que não vão aos asilos: sentam-se sozinhas em suas casas, em seus sofás, soltando chiados, pedindo silêncio para assistir a TV.
Minha filha via tudo.
Perguntava muito.
Algumas perguntas eu até conseguia responder.
Outras, não.
Na verdade, a maioria.
Atenta em sua tarefa de engolir o mundo com os olhos, nem percebia que era observada.
Existem muitos velhos num asilo de velhos. Uns mais velhos que os outros. Alguns são velhos por fora, outros o são por dentro.
Será que os visitantes se isolam nos asilos porque encaram o velho que está dentro deles? Ou têm que tropeçar naquela velha dobra de pensamento escondido num canto qualquer de um antigo sentimento terno?
Terno…
Não é um bom traje para usar ao ir a um asilo.
O bom é ter nos pés calçados confortáveis; ter nos olhos um brilho entusiasmado; ter no semblante uma alegria contagiante!…
Que a gente possa se contagiar num asilo. A gente pode contagiar os outros!
Existem pessoas novas no asilo.
Umas mais novas que as outras.
Existem pessoas ricas no asilo.
Existem, também, pessoas pobres; algumas tão pobres que a única coisa que têm é dinheiro.
Existem pessoas fortes no asilo e lá encontramos pessoas fracas, frágeis.
A gente se isola no asilo.
Lá, cada semblante é uma semente!
Lá tem uma velho de chapéu branco.
Suas calças são brancas.
Sua camisa é branca.
Sua barba é branca.
Suas botinas são brancas!
Suas unhas são sujas…
Seu olhar é distante.
E ele se encanta contando contos!
Dizem que o velho é louco.
Existem muitos loucos no asilo.
As pessoas sadias os recebem com alegria, mesmo que eles só apareçam nas visitas.
O asilo isola a gente.
E a gente, assim, se anula.
É só.
É pó.
É chã…
Vem um velhinho e diz: “–Quer mais chá?”
Então, minha filha me contorce com o óbvio:
“–Pai, eles têm filhos?”...
... E lá, isolado, no asilo, olho os olhos de minha filha a me dizerem que
lá no asilo, cada semblante é uma semente que
fica, assim, plantada
dentro da gente.

Dia 27/9 foi Dia do Idoso. Dia 12/10 será Dia da Criança. E nesse intervalo, cá estamos nós...
Cinco anos do Estatuto do Idoso... Salvem os velhinhos!!
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2 comentários:
A história desses velhinhos, que tem muito pra contar, não pode se perder na pueira do tempo.
Pois é... esperemos que mais pessoas pensem da mesma forma.
Grato pela visita e pelo comentário.
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