sexta-feira, 3 de outubro de 2008

UM DIA NO ASILO. (by Delta9)


Era uma vez um asilo...
Não era um asilo grande. Também não era pequeno.
Era apenas um asilo. Muitas vezes, um asilo a duras penas.

Naquele dia fomos ao asilo, eu e minha filha, conhecer as pessoas.
Eu observava minha filha observando as pessoas.

Ela é muito observadora, sorridente, discreta e interessada.

E assim, observando, percebi que num asilo as pessoas se sentem isoladas.

As pessoas mais isoladas são as que não vão aos asilos: sentam-se sozinhas em suas casas, em seus sofás, soltando chiados, pedindo silêncio para assistir a TV.

Minha filha via tudo.
Perguntava muito.
Algumas perguntas eu até conseguia responder.
Outras, não.
Na verdade, a maioria.


Atenta em sua tarefa de engolir o mundo com os olhos, nem percebia que era observada.

Existem muitos velhos num asilo de velhos. Uns mais velhos que os outros. Alguns são velhos por fora, outros o são por dentro.

Será que os visitantes se isolam nos asilos porque encaram o velho que está dentro deles? Ou têm que tropeçar naquela velha dobra de pensamento escondido num canto qualquer de um antigo sentimento terno?


Terno…

Não é um bom traje para usar ao ir a um asilo.
O bom é ter nos pés calçados confortáveis; ter nos olhos um brilho entusiasmado; ter no semblante uma alegria contagiante!…

Que a gente possa se contagiar num asilo. A gente pode contagiar os outros!


Existem pessoas novas no asilo.
Umas mais novas que as outras.


Existem pessoas ricas no asilo.
Existem, também, pessoas pobres; algumas tão pobres que a única coisa que têm é dinheiro.

Existem pessoas fortes no asilo e lá encontramos pessoas fracas, frágeis.

A gente se isola no asilo.
Lá, cada semblante é uma semente!


Lá tem uma velho de chapéu branco.
Suas calças são brancas.
Sua camisa é branca.
Sua barba é branca.
Suas botinas são brancas!
Suas unhas são sujas…
Seu olhar é distante.
E ele se encanta contando contos!

Dizem que o velho é louco.

Existem muitos loucos no asilo.

As pessoas sadias os recebem com alegria, mesmo que eles só apareçam nas visitas.

O asilo isola a gente.
E a gente, assim, se anula.
É só.
É pó.
É chã…


Vem um velhinho e diz: “–Quer mais chá?”

Então, minha filha me contorce com o óbvio:
“–Pai, eles têm filhos?”...



... E lá, isolado, no asilo, olho os olhos de minha filha a me dizerem que
lá no asilo, cada semblante é uma semente que
fica, assim, plantada
dentro da gente.




Dia 27/9 foi Dia do Idoso. Dia 12/10 será Dia da Criança. E nesse intervalo, cá estamos nós...
Cinco anos do Estatuto do Idoso... Salvem os velhinhos!!




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2 comentários:

Sr do Vale disse...

A história desses velhinhos, que tem muito pra contar, não pode se perder na pueira do tempo.

Delta9 disse...

Pois é... esperemos que mais pessoas pensem da mesma forma.
Grato pela visita e pelo comentário.